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Atos dos Apóstolos retrata crescimento e desafios do cristianismo primitivo

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Os primeiros anos da igreja cristã foram considerados decisivos para a expansão da religião que conta oficialmente com bilhões de seguidores em todo o mundo. O início, no entanto, bem diferente da realidade institucional da atualidade, deu-se em um ambiente simples, em região sob domínio cultural e político do antigo Império Romano, com discípulos em sua maioria originários do judaísmo e ainda sensibilizados pela morte precoce de Jesus Cristo. Os primórdios do chamado cristianismo primitivo são esboçados no livro de Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, que será objeto de estudo de adventistas e outros interessados durante os meses de julho a setembro. A lição da Escola Sabatina, um produto da Igreja Adventista do Sétimo Dia em nível mundial, tem como autor principal um teólogo brasileiro, o doutor Wilson Paroschi, entrevistado pela Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN). Natural de Cianorte, Paraná, tem servido a igreja como pastor distrital, editor e principalmente professor de Teologia já por mais de 34 anos. Formado em Teologia (1983) pelo antigo IAE, em São Paulo (atual Unasp/SP), concluiu o mestrado em Teologia pelo Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia (1992) e o doutorado em Novo Testamento (Ph.D.) pela Andrews University (2003). Em 2011, realizou estudos pós-doutorais na Universidade de Heidelberg, Alemanha. Já publicou vários livros e artigos tanto no Brasil quanto no exterior (EUA e Europa). Seu livro mais recente, Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento, publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil (2012), recebeu da Associação de Editores Cristãos (ASEC) o Prêmio Areté 2013 de Literatura na categoria Estudo Bíblico. Em janeiro desse ano, Paroschi se transferiu para a Schoool of Religion da Southern Adventist University, nos EUA, onde ensina disciplinas de Novo Testamento. Casado com Eliane Paroschi, professora de Pedagogia, ele tem duas filhas, Keldie e Keilyn.

O que o senhor tinha em mente ao escrever a lição sobre o livro de Atos, que é um grande e interessante registro histórico do Novo Testamento?

Minha intenção era apresentar um retrato fidedigno dos primeiros trinta anos da igreja cristã, que é o período coberto pelo livro de Atos. Há muita incompreensão sobre esse período, que costuma ser romantizado como se a igreja apostólica fosse um exemplo perfeito de piedade e fé. Na verdade, muitas foram as dificuldades que eles enfrentaram, tanto fora quanto dentro da igreja. Não obstante, talvez foi o período em que a igreja mais cresceu. O diferencial foi a vinda do Espírito e a dedicação de homens como o apóstolo Paulo.

Que principais lições o senhor acredita que os leitores desse material poderão aprender a partir do estudo desse livro durante três meses, com vistas à aplicação em sua vida cristã cotidiana?

São muitas as lições. Talvez a primeira, como vemos já em Atos 1, é que Jesus intencionalmente deixou os discípulos em dúvida quanto ao tempo de Seu retorno à Terra. Em vez de lhes responder a pergunta quanto à restauração do reino (versos 6-7), Ele os comissionou a levar o evangelho ao mundo (verso 8). Aqui econtramos uma importante verdade: o tempo da segunda vinda não deveria jamais ser motivo de especulações ou sensacionalismo cronológico. A melhor maneira de se aguardar a volta de Jesus é testemunhando dEle e se envolvendo na missão da igreja. A expectativa do breve retorno sem o envolvimento na missão pode conduzir a um falso reavivamento e até fanatismo, ao passo que o foco na missão sem o devido preparo para o breve encontro com o Senhor em paz pode conduzir, como de fato o faz, a uma ênfase despropositada em números e o batismo de pessoas despreparadas. Ambas as coisas, devem ser evitadas. Alguém disse: “Devemos estar prontos como se Cristo fosse voltar hoje, mas testemunhar dEle como se Ele ainda fosse levar cem anos para voltar.”

Em Atos, é retratado o período da chamada igreja cristã primitiva. Quais eram os principais desafios que essa nova organização enfrentou internamente e, sob o ponto de vista externo, e o que a caracterizou promovendo seu crescimento rápido e consistente?

Como disse, muitos foram desafios, tanto dentro quanto fora da igreja. Um deles, talvez o maior, tinha que ver com a missão aos gentios. Exclusivistas como eram, os judeus, incluindo-se os apóstolos originais, ainda não compreendiam a natureza universal do evangelho. Para eles, a salvação estava limitada aos membros do concerto abraâmico, o que os levou a insistir na circuncisão dos gentios conversos como se eles precisassem primeiro se tornar judeus para, então, ser admitidos à comunidade de fé. Isso, porém, era uma grave distorção do evangelho, visto que privilegiava um grupo em particular (os judeus) e exigia a intervenção humana em se guardar a lei (a circuncisão). Não fosse por alguém como Paulo, a igreja nunca teria se tornando o fenônemo mundial que se tornou em apenas poucos anos. A batalha foi quase que inglória e, por fim, acabou custando ao apóstolo a própria vida. A conclusão de Atos, porém, mostra o triunfo do evangelho por ele pregado.

O que se pode aprender, da parte dos líderes de igrejas hoje, quanto à forma de a igreja cristã ser administrada no período registrado pelo livro de Atos?

Creio que a principal lição que os líderes de hoje podem aprender do período apostólico é que posição, não importa qual seja, não garante infalibilidade, muito menos consiste num salvo-conduto para se administrar a igreja de acordo com opiniões ou preferências pessoais. Ao longo livro de Atos, os líderes da igreja em Jerusalém, os apóstolos incluídos, estavam errados na maior parte do tempo quanto à natureza do evangelho, a ortodoxia de Paulo, e as missões gentílicas. Ellen White chega a declarar que não estava nos planos de Deus que a vida de Paulo fosse ceifada tão cedo, mas Ele nada fez para impedir que isso acontecesse para que os líderes em Jerusalém dessem ao apóstolo o real valor que ele tinha, ainda que de maneira póstuma (livro Atos dos Apóstolos, página 232). Então ela diz que isso se repete com relativa frequência ainda hoje. “Quantas vezes teria o Senhor prolongado a obra de um fiel ministro, tivessem seus labores sido apreciados!” Por causa da falta de apreciação, diz ela, “o Senhor, às vezes, remove deles a bênção que Ele deu” (ibidem). E quando por fim o tal obreiro repousa para sempre, “então os obstinados podem ser despertados para ver e apreciar a bênção que repeliram. Sua morte pode realizar o que sua vida não conseguiu fazer” (ibidem, 233). Eu me emociono e me encho de temor cada vez que leio essas palavras.

O senhor é um dos maiores especialistas em Novo Testamento e se dedica, também, a produzir materiais que atestam a credibilidade dos escritos dos evangelhos. Por que podemos confiar na autenticidade do que hoje lemos no NT levando em conta que o que há disponível para análise, conforme se divulga, são cópias de cópias e, pelo que se sabe, o processo de copiar conteúdos manuscritos não era uma tarefa tão precisa como se imagina?

De fato, a Bíblia chegou até nós por mãos humanas. Ela não caiu pronta do céu. Foi assim na sua composição, foi assim na sua transmissão ao longo dos séculos. Mãos humanas simples e imperfeitas foram empregadas no processo de cópia e recópia das Escrituras. Por causa disso, diversos erros foram incorporados aos manuscritos. Felizmente, o número de cópias disponíveis hoje é tão abundante que podemos, mediante cuidadosa comparação, identificar os erros e corrigi-los. A ciência que faz isto é chamada crítica textual, que nada mais é, senão, o exame minucioso dos manuscritos com a intenção de restaurar o texto das Escrituras à sua forma original. Talvez convenha destacar, porém, que a grande maioria dos erros envolve questões de pouca ou nenhuma importância, e que mesmo se somados eles não são o bastante para alterar o conteúdo essencial da Escritura. Isso significa que, independentemente da qualidade do manuscrito, a mensagem bíblica nunca foi comprometida. Podemos estar seguros disso.

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